UMA VALIOSA SELA DE COURO DE BÚFALO

Por Adauto Silva Reis

Conta uma lenda que na década de trinta, num vilarejo situado no interior do estado de Minas Gerais existiu um comerciante muito astuto e inteligente chamado Kaliu Abadad, ele era um libanês muito culto e dono do único armazém do lugarejo, cujo estabelecimento era muito sortido e atendia a todos os moradores e os fazendeiros da região.
Junto com o senhor Kaliu, trabalhava o simpático atendente chamado Sayad Amim, que por sinal era também libanês e sobrinho do seu proprietário do Armazém e Mercearia Líbano. Muito embora o Sayad não fosse uma pessoa das mais cultas, era ele quem cuidava de fazer as vendas e de anotar todos os fiados no caderno de controle do armazém.
Certo dia, no horário da manhã um fazendeiro da região chegou bem cedinho ao balcão e perguntou para a Sayad se ele tinha em estoque uma sela de couro bem trabalhada, digna de ser usada em um cavalo muito especial da raça quarto de milha.
Seu Kaliu como sempre ficava de longe observando o movimento do comércio e costumeiramente continuava sentando em uma cadeira de balanço, enquanto lia o jornal ou fazia a leitura de um livro.
De imediato o jovem atendente respondeu que sim e em seguida mostrou para o ilustre fazendeiro uma maravilhosa sela de couro de búfalo, digna de ser usada em qualquer cavalo de puro sangue.
O fazendeiro gostou da sela. Em seguida, pediu para Sayad colocar na sua conta, pois o costume da época era de pagar as compras efetuadas somente no mês seguinte. Nesse dia, o movimento do armazém foi muito intenso e por um mero esquecimento, o jovem Sayad esqueceu de fazer a anotação e o lançamento da venda da dita sela no caderno de fiados.
No final do dia, o seu Kaliu foi conferir o movimento do caixa e verificou que havia uma relativa falta no caixa, proveniente da venda de uma sela, a qual teria sido vendida a um distinto fazendeiro no turno da manhã.
Imediatamente, virou-se para o sobrinho e disse:
- Sayad, o caixa de hoje não está correto!
- Como não está tio, eu mesmo fechei o caixa agora há pouco!
- Bom, o dinheiro está certo, as anotações no caderno é que estão mais ou menos!
- Como assim tio Kaliu?  – quis saber o sobrinho.
- Hoje pela manhã foi vendida uma sela de couro de búfalo fiado e ao que parece você esqueceu de anotar no caderno.
- Virgem Santa Maria, é verdade tio! Eu vendi aquela sela cara e muito especial para um fazendeiro!
- Então me diga logo o nome desse fazendeiro para que eu possa anotar no caderno!
- Eta, tio Kaliu! E agora? – respondeu o jovem Sayad.
- O que foi Sayad?
- Eu não estou me lembrando do nome da pessoa!
O esperto seu Kaliu, coçou o queixo e como num passe de mágica virou-se para o sobrinho e disse:
- O freguês era morador da vila ou ele era um fazendeiro?
- Com certeza tio, o comprador dessa sela era um fazendeiro, pois ele me falou que iria usar a sela em um cavalo de raça que ele tinha na fazenda! – respondeu Sayad.
- Bom, nesse caso verifique no caderno de controle quantos fazendeiros existem na nossa região!
O Sayad pegou o caderno e passou a pronunciar o nome de cada um dos fazendeiros da região que totalizava vinte e dois nomes. No entanto, ele confessou ao tio que não se recordava do nome do suposto comprador da sela.
Preocupado com o enorme prejuízo, o espertíssimo senhor Kaliu olhou fixamente para o sobrinho e disse:
- Bom! Nesse caso, não podemos ficar com esse enorme prejuízo!
- Então, o que vamos fazer tio Kaliu? – quis saber o jovem Sayad.
- O que vamos fazer é muito simples meu caro Sayad. Você vai colocar a venda de uma sela especial de couro de búfalo na conta de cada um desses fazendeiros. Daqui a um mês aquele que reclamar da anotação dessa dívida, a gente retira o débito do caderno, e, assim, iremos descobrir de um a um o nome do verdadeiro comprador da sela.
Transcorridos um pouco mais de trinta dias, o seu Kaliu resolveu fazer um levantamento com Sayad para saber se ele já havia descoberto o nome do suposto comprador da sela de couro de búfalo.
Como fazia sempre, sentado na sua famosa cadeira de balanço e de posse do famoso jornal que havia recebido recentemente da capital do estado, o velho Kaliu chamou o empregado:
- Ei, Sayad! Venha até aqui e me traga o caderno de notas!
Rapidamente o Sayad saiu do balcão, pegou o caderno e imediatamente se dirigiu até onde o seu Kaliu estava e disse:
- Aqui estou tio!
- Sayad, já faz mais de um mês que o tal fazendeiro misterioso comprou a sela de couro de búfalo, não é isso mesmo?
- É sim, meu tio!
- Então meu caro Sayad, algum fazendeiro já pagou conta este mês?
- Sim tio Kaliu, todos eles já pagaram as suas respectivas contas!
- Então me conte como ficou resolvido o caso da sela!
- Bom... Seis fazendeiros não pagaram à sela, pois eles alegaram que não haviam comprado nenhuma sela nos últimos meses... Doze deles pagaram pela compra da sela sem pestanejar... Os outros quatro disseram que estavam em dúvida e por isso, ainda não pagaram à sela!
- Bom, nesse caso vamos encerrar o caso... Risque imediatamente o valor do débito desses quatro fazendeiros que ficaram em dúvida, pois, com certeza absoluta jamais iremos saber quem realmente foi o comprador desta “bendita sela santa”.
- Por que o senhor chamou de “bendita sela santa” tio Kaliu? – quis saber o jovem Sayad.
- Muito simples meu caro Sayad! Afinal de contas, não estamos mais no prejuízo e sim no lucro. – finalizou o astuto libanês.  

 

Nota:Todos os nomes deste conto são fictícios, qualquer semelhança com pessoas ou com algum fato ocorrido ou conhecido, tratou-se apenas de uma mera coincidência. 

 

Moral da História: Comprar ou vender fiado é uma prática muito comum que poderá gerar para os compradores ou para os vendedores os dois lados da moeda. O lado bom (é a carência ou o prazo) e o lado ruim (pode significar as possíveis perdas).