Enquanto a fila de pessoas interessadas em adotar no Brasil passa das 30 mil, um perfil de crianças e adolescentes disponíveis desperta pouco interesse e ocupa as últimas posições da fila: as portadoras de deficiências. Na Bahia, desde 2019, apenas 8 crianças com alguma deficiência conseguiram ser adotadas.
O estado tem 280 menores vinculadas ao sistema de adoção. Desse total, 54 são crianças e adolescentes com deficiência, que vivem entre a espera por um lar, brinquedos, terapias e atividades coletivas em instituições de acolhimento.
Segundo o painel do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), 33 menores têm deficiência intelectual, 15 têm deficiência física e intelectual e seis têm deficiência física.
Ao todo, o estado tem 1.315 pretendentes cadastrados no SNA, mas a adoção de pessoas com deficiência é cercada por mitos, barreiras e preferências que tornam bem mais difícil o processo adotivo, afirma a psicóloga Évelim Silva, que atua no Lar Vida, instituição de Salvador que acolhe a população PcD.
Muitas dessas crianças passam anos esperando por uma família. Algumas sem nunca receber visitas ou demonstrações de interesse para adoção, segundo a psicóloga.
Dados do SNA mostram que crianças com deficiência estão entre os perfis menos procurados pelos pretendentes à adoção no país. A preferência ainda é por bebês e crianças mais novas e sem deficiência.
A ausência de vínculo familiar ultrapassa os desafios estruturais e afeta diretamente o desenvolvimento emocional das crianças acolhidas. Évelim Silva destaca que, mesmo com todo esforço e trabalho da equipe do Lar Vida, nenhum acolhimento consegue substituir completamente a convivência familiar.
“Na unidade de acolhimento, por mais que exista todo o serviço, profissionais acompanhando cada acolhido, atividades internas e externas, nada substitui o seio familiar”, defende.
Os impactos positivos aparecem de forma clara quando essas crianças retornam para a família de origem ou são adotadas. "Quando acontece a reinserção familiar ou a adoção, a gente percebe um desenvolvimento maior da autonomia deles. Na unidade, tudo é coletivo. Já na família, eles conseguem ter as próprias coisas, o próprio quarto, guardar suas roupas, desenvolver senso crítico, fazer escolhas, descobrir do que gostam ou não gostam", explicou a psicóloga.
A atenção individualizada também contribui diretamente para o desenvolvimento emocional e social das crianças e adolescentes. Ela ajuda nos estímulos do dia a dia e permite que sinais singulares sejam notados, pontos importantes no desenvolvimento de pessoas com deficiência.
"Há uma atenção voltada só para eles. Então, percebemos um ganho muito positivo nesse sentido", afirma a Évelim.
Ainda mais barreiras
Além da espera prolongada pela adoção, crianças com deficiência ainda enfrentam capacitismo, o que acaba reduzindo ainda mais as possibilidades de inserção familiar.
“As pessoas ainda olham para pessoas com deficiência como incapazes de estudar, trabalhar ou ocupar espaços sociais”.
Ela explica que as barreiras aparecem em diferentes momentos da vida: desde o acesso em rodas de brincadeiras, acesso aos meios de locomoção, educação e até oportunidades no mercado de trabalho. Segundo a especialista, na adoção, a lógica não é diferente.
"O fluxo de adoção é muito pequeno. Dificilmente as pessoas procuram uma criança com deficiência. A maioria das adoções ainda é de bebês sem deficiência", explica.
O medo em relação aos cuidados e às necessidades dessas crianças também afasta possíveis adotantes.
"As pessoas tem muito medo, muito receio. Existe muito tabu sobre o cuidado, sobre as limitações e sobre o que essas crianças podem ou não fazer".
Fonte: G1

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