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Coautora repudia fake news sobre mosquitos transgênicos em Jacobina


A empresa Oxitec entrou em contato com o Jacobina Notícias, nesta quarta-feira (25), para falar sobre as notícias veiculadas na imprensa nacional relacionadas ao mosquito transgênico OX513A. A empresa nega a existência de uma hibrido supermosquito, como foi tratado o experimento após uma análise equivocada publicada no periódico Scientific Reports.

Parte da mídia – e, em consequência, da população – ficou alarmada em meados de setembro, quando artigo publicado no periódico Scientific Reports apontou a presença, na Bahia, de híbridos de mosquitos geneticamente modificados e nativos. O motivo do alarme é fácil de entender: da forma como foi escrito, o trabalho científico insinua que a mistura entre os dois tipos de mosquito pode ter gerado uma espécie de super-inseto transmissor de doenças. 

Mais alarmada ficou Margareth Capurro, professora do Instituto de Ciencias Biomédias (ICB) da USP, que consta como coautora do artigo. A pesquisadora afirma não ter participado – e muito menos aprovado – da redação final ou da publicação do trabalho. A maioria dos autores brasileiros (seis de um total de oito) entrou com pedido de retratação do artigo em 20 de setembro, logo após constatarem, segundo Capurro, que o texto publicado não era fiel aos resultados apresentados pelo grupo, e que a redação original havia sido alterada. A pesquisadora falou com exclusividade sobre o caso para a Revista Questão de Ciência.

A pesquisadora da USP concorda com o grande número de críticos do trabalho, dentro da comunidade científica, que aponta que a redação do artigo é deficiente. Faltou uma frase crucial no texto publicado pela Scientific Reports: não existem mosquitos transgênicos no céu da Bahia! Também faltou dizer que eventuais mosquitos híbridos encontrados hoje, na cidade baiana de Jacobina, não representam nenhum perigo para a população, não transmitem mais doenças do que os mosquitos comuns e não são resistentes a inseticidas. 

O grupo envolvido com o estudo avaliou o estado atual da população de mosquitos da espécie Aedes aegypti, vetor da dengue, zika e chikungunya, quatro anos após a liberação, na área, de mosquitos transgênicos produzidos pela empresa britânica Oxitec. 

O trabalho, de acordo com o relato de Capurro, foi desenvolvido como parte do monitoramento previsto e exigido pela CTNbio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) como parte do protocolo de aprovação do mosquito transgênico OX513A. Os autores concluíram que houve transferência, para a população geral, de parte do genoma do mosquito modificado, desenvolvido para reduzir a quantidade de Aedes sp transmissores de doenças  em Jacobina. 

O transgênico foi liberado na região entre 2013 e 2015, em experimento de campo aprovado pela CTNbio, que atestou a segurança e eficácia do procedimento com base em trabalhos assinados pelos  autores brasileiros  . O experimento  foi considerado um sucesso, reduzindo a população de mosquitos locais em 95% durante sua duração. Com o fim da liberação dos insetos geneticamente modificados, houve retomada da população – o que também era esperado.

O experimento

O mosquito macho da linhagem OX513A carrega um gene artificial, construído em laboratório, que impede que sua prole se desenvolva até a idade adulta. A ideia, portanto, é que, ao copular com as fêmeas locais, os machos modificados reduzam a população, pois a geração seguinte não vai se desenvolver o suficiente para deixar descendentes. O transgene em questão carrega um mecanismo de “desligamento”, e some rapidamente da população. 

O estudo publicado agora na Scientific Reports mostra que partes do genoma do OX513A podem ser encontradas nos mosquitos selvagens da Bahia. Mas o texto, tal como publicado, deixa de mencionar que nenhuma dessas partes transferidas à população local contém DNA manipulado: em outras palavras, são genes comuns e naturais que podem ser encontrados, normalmente, em mosquitos comuns e naturais. 

Este resultado, em si corriqueiro, é apresentado como  “inesperado” no texto que foi publicado, de acordo com Capurro, sem sua concordância. De fato, não são apresentados no artigo nenhuma evidência ou dados para suportar a hipótese levantada de que a transferência genética poderia ter originado mosquitos híbridos mais “robustos”, e talvez até resistentes a inseticidas. 

Se, por um lado, os dados científicos do trabalho estão corretos – houve transferência genética de partes não específicas do genoma, indicando que existem realmente híbridos do OX513A na população atual, as especulações sobre robustez e resistência a inseticidas não passam disso, especulações, que podem ter consequências graves para a formulação de políticas científicas e de saúde pública, se forem mal interpretadas. 

Não há nenhum dado sobre a suposta “robustez” do híbrido, e a linhagem OX513A não apresenta qualquer tipo de resistência a inseticidas, como demonstrado em publicação anterior, aliás assinada pelos mesmos autores. E não há nada inesperado nos resultados: já se sabia que até 4% dos mosquitos machos conseguem se desenvolver até a idade adulta, e era, portanto, esperado que houvesse um certo grau de hibridização com a população local. Isso não quer dizer, no entanto, que os mosquitos locais tenham se “transformado” em transgênicos, e muito menos que os mosquitos transgênicos agora dominem a população. 

Em entrevista para a agencia oficial de notícias alemã Deutsche Welle, o autor sênior, Jeffrey Powell, comenta que os resultados são perigosos porque “inesperados”, e que a hibridização poderia ter dado origem a um vetor “mais robusto”. Também comenta sobre a importância do monitoramento deste tipo de experimento. 

Mas os dados apresentados pelos próprios pesquisadores demonstram que o transgene não está presente na população. Ou seja, não existem mosquitos transgênicos fora de controle e voando soltos por aí.Também demonstram que os mosquitos híbridos não são diferentes dos naturais, em relação à capacidade de transmitir doenças. E a necessidade de monitoramento foi justamente o que motivou o estudo mais recente. Capurro afirma que Powell, à revelia dos demais autores, optou por não explicitar estes dados, e incluiu as especulações alarmistas por sua própria conta. 

Não há motivos para afirmar que estes híbridos seriam mais “robustos” do que a população selvagem: híbridos ocorrem o tempo todo na natureza, e o Aedes não é um gênero original do Brasil. Quanto à resistência a inseticidas, as linhagens cubana e mexicana, utilizadas para desenvolver o OX513A, foram escolhidas justamente por serem mais, e não menos, vulneráveis a esses venenos. 

Híbridos brasileiros

Margareth Capurro explica que a linhagem escolhida é, na verdade, um híbrido de mosquitos mexicanos, venezuelanos e do Norte do Brasil. Trata-se de uma linhagem criada em laboratório, e justamente por isso, mais frágil, e muito mais sensível a todos os tipos de inseticida. A pesquisadora contesta as alegações de Powell sobre robustez e inseticidas, e sustenta que os dados do artigo não dizem nada a respeito disso. 

Segundo Paulo Andrade, professor da Universidade Federal de Pernambuco, “o artigo parece irresponsavelmente especulativo quando trata de riscos, além de usar uma linguagem alarmista. Até o título é apelativo: afinal, os mosquitos transgênicos não transferem gene algum para a linhagem local, apenas trocam alelos. O uso da expressão ‘transferência de genes’ atende um apelo popular, mas carece de ciência”. 

Os “alelos” a que Andrade se refere são variações do mesmo gene dentro de uma espécie. Por exemplo, temos alelos diferentes para cor dos olhos. Sempre que há reprodução envolvendo sexo, há troca de alelos, isso é normal e esperado. Para cada gene do corpo humano, recebemos um alelo da mãe e outro, do pai. Uma troca de alelos é bem diferente da introdução de genes estranhos à espécie.

A linguagem usada realmente gera apelo popular. As manchetes sobre o assunto falam em “experimento fracassado” e que os mosquitos da Oxitec “conseguiram se reproduzir e repassaram para novas gerações genes modificados em laboratório”, exatamente o que não aconteceu neste caso. Outros títulos enganosos: “super mosquito da dengue na Bahia”, “prole de mosquito transgênico não morre”, “mosquitos transgênicos se reproduzem no Brasil”, e “modificação genética é passada adiante”.

Alarde e despreparo

Comum a todas as reportagens é a confusão prevista por Andrade: a linguagem especulativa e alarmista do artigo resultou em desinformação. A mídia fala em transferência da modificação genética e mosquitos transgênicos fora de controle – o que não ocorreu – e compra a ideia do híbrido robusto e da suposta resistência a inseticidas. 

Francisco Aragão, pesquisador sênior da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, critica o tom do artigo científico. “Apesar de interessantes, os resultados não são surpreendentes. O problema são as especulações sobre as alterações ocorridas na população de mosquitos, feitas de forma apressada, e não fundamentadas. Já no título, o leitor menos atento pode confundir genes com transgenes. Não se mostrou que há mosquitos transgênicos voando, de forma inesperada, nos céus da Bahia”. 

No caso, o risco nem está no leitor menos atento que lê o paper original, mas o jornalista menos atento, ou com viés ideológico, que ao traduzir o que acha que entendeu do artigo para a linguagem do dia-a-dia adota termos como “super mosquito”, “transgênicos fora de controle”, e “consequências imprevisíveis”. Nenhuma das reportagens publicadas sobre o assunto, até o momento, procurou um geneticista para avaliar o mérito do artigo. Foram entrevistados apenas profissionais com conhecido viés ideológico contrário à tecnologia de modificação genética. 

Técnicas de melhoramento genético são usadas na agricultura e na medicina há anos. Antes de serem utilizadas em escalas que possam afetar o público, passam por avaliações que são feitas caso a caso: nenhuma autoridade, no Brasil, libera transgênicos com base em pressuposições ou apenas na palavra do fabricante. 

Tamanhas são as falhas e as possíveis repercussões do artigo, que os editores do periódico anexaram uma nota, em 18 de setembro, dizendo que: “alertamos os leitores de que as conclusões deste artigo estão sendo alvo de críticas, sob consideração dos editores. Um editorial de resposta será publicado após a resolução destas críticas”. 

Natalia Verza Ferreira, Diretora da Oxitec no Brasil, lamenta ainda existirem “declarações irresponsáveis e estudos inconsistentes”, publicadas em “revistas indexadas apenas para inspirar manchetes sensacionalistas”.  Ela afirma que “nenhum dos resultados deste estudo é surpresa para a Oxitec ou para os reguladores”. 

O grupo brasileiro liderado por Capurro pretende publicar os dados de monitoramento, com as conclusões adequadas, em outro periódico e sem a participação de Powell. A pesquisadora da USP insiste que o artigo, em sua redação original, apenas descrevia o monitoramento já previsto por lei, com resultados esperados e favoráveis. 

A biotecnologia é uma das mais úteis ferramentas para um futuro sustentável, com menos destruição do ambiente e maior controle de doenças e pragas. Comunicar a segurança destas técnicas para a população já é um desafio considerável. Poderíamos passar sem o “fogo amigo”. 

Jeffrey Powell foi procurado por Questão de Ciência no início da semana, mas não se manifestou. O artigo será atualizado caso o pesquisador deseje registrar sua visão. 

Natalia Pasternak é bióloga, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e presidente do Instituto Questão de Ciência. (Fonte: Revista Questão de Ciência)

Fake news do 'Supermosquitos'

Fake news sobre 'supermosquitos' provocam pânico no Brasil. Revista científica divulga artigo que incita ao erro, e seis de oito autores pedem retratação à publicação

Uma pesquisa realizada pela empresa britânica Oxitec para combater o mosquito transmissor da dengue por meio de controle biológico está sendo alvo de informações falsas. Autorizada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), a pesquisa não produziu nenhum efeito colateral negativo, ao contrário do que sugerem informações equivocadas, divulgadas na imprensa. Sensibilizar a sociedade para a importância desse estudo é fundamental para que o Brasil possa dispor de uma solução segura e eficaz no combate a uma epidemia que, entre janeiro e maio deste ano, já matou 295 pessoas, segundo dados do Ministério da Saúde.

Com sede no Reino Unido, a Oxitec é pioneira no uso de engenharia e biologia para produção de insetos utilizados no controle de pragas agrícolas e de vetores transmissores de doenças. Há mais de dez anos, a Oxitec iniciou o desenvolvimento da primeira geração do Aedes do Bem® (OX513A), um mosquito modificado que combate o Aedes aegypti, transmissor da zika, dengue e chikungunya. O Aedes do Bem®, ao fecundar fêmeas, transmite uma modificação genética que produz proles que não ultrapassam o estágio de larva. É esse mecanismo que faz com que a população de Aedes aegypti diminua drasticamente.

Em 2013, a Oxitec realizou um experimento em Jacobina (BA), devidamente autorizado pela CTNBio. Esse experimento foi feito após 14 anos de pesquisas e 36 semanas de estudos no município baiano, o que significa que a liberação dos mosquitos modificados não foi feita de forma precipitada. Naquela ocasião, os Aedes do Bem® foram soltos durante 117 semanas. O experimento resultou na supressão contínua das populações de Aedes aegypti nas áreas tratadas, totalizando uma redução de 94% na população de mosquitos, durante o experimento.

Como previsto, os resultados do experimento em Jacobina demonstram que a técnica requer uma liberação contínua nas áreas tratadas.

O Aedes do Bem® produz um efeito similar ao de um inseticida, mas por meio de um processo biológico. Para que a redução da população de Aedes aegypti seja percebida, é necessário que o Aedes do Bem® seja liberado durante um período mínimo de um ano. Se esse processo for interrompido, o Aedes aegypti retorna. É para garantir a segurança e aumentar a eficácia do Aedes do Bem® que a Oxitec promove experimentos como aquele que foi realizado em Jacobina.

Todos os experimentos conduzidos pela Oxitec no Brasil – inclusive o de Jacobina – apresentaram os resultados esperados. Essa informação está presente no dossiê regulatório apresentado pela Oxitec e aprovado pela CTNBio, em 2014. Com base nesses resultados, a Oxitec afirma, com total segurança, que os experimentos não produziram “supermosquitos transgênicos” e “resistentes a inseticidas” ou “capazes de transmitir doenças mais facilmente”.

A origem das informações equivocadas é um artigo publicado pela revista eletrônica Scientific Reports, em 9 de setembro de 2019. Após tomarem conhecimento dos equívocos contidos no artigo, os editores da Scientific Reports emitiram um alerta, em 17 de setembro, sinalizando que as conclusões estão sob revisão. Isso foi feito à luz das preocupações levantadas sobre integridade científica, da não divulgação de potenciais conflitos de interesse e de declarações prejudiciais e enganosas contrárias às evidências. O artigo, com o alerta de revisão, está disponível neste link: https://www.nature.com/articles/s41598-019-49660-6#change-history.

Oxitec

A Oxitec destaca que seis dos oito coautores brasileiros do artigo em questão já se retrataram com relação aos equívocos que produziram uma onda de especulações e informações falsas. O fato de o experimento ter detectado a ocorrência de um mosquito híbrido e que apenas 5% desses mosquitos sobrevivem, não representa risco algum, pois esses mosquitos não causam efeitos adversos e desaparecem em poucas semanas, conforme já era esperado. Essa informação, suprimida indevidamente por difamadores, já havia sido comunicada à CTNBio, que avaliou como seguro o índice de 5%.

Esses mosquitos híbridos, que desaparecem em pouco tempo e não causam efeitos adversos, conforme atestado pela CTNBio, não são mais resistentes e não contribuem para a propagação de doenças. O próprio artigo da Scientific Reports, assim como outros artigos publicados à época, indicam que a linhagem OX513 desaparece do ambiente em algumas semanas, após a interrupção das liberações, como esperado. A ocorrência dos mosquitos híbridos é, portanto, parte do processo de combate ao Aedes aegypti e não é um efeito colateral. 

O compromisso da Oxitec é fornecer uma solução segura, eficaz e viável, sem impactos negativos para o meio ambiente e para a saúde humana. Por essa razão, lamentamos a divulgação de informações falsas e difamatórias sobre a Oxitec, o Aedes do Bem® e o experimento de Jacobina. Todas as atividades da Oxitec são conduzidas com transparência, segurança e em atendimento à legislação. Estamos à disposição da sociedade para prestar qualquer esclarecimento sobre isso. Para profissionais de imprensa e veículos de comunicação, nossa assessoria de imprensa no Brasil está pronta para oferecer informações que possam facilitar o entendimento sobre nossas atividades. (Por João Mauro Uchôa)