Filho de Mario Cravo pede R$ 1 mi para permitir reconstrução de obra destruída

Prefeito ACM Neto deseja recuperação da obra original do monumento; parte da família aceita doar os projetos do artista

Passaram pouco mais de sete meses desde que o monumento Fonte da Rampa do Mercado ou Monumento à Cidade do Salvador, de autoria do artista plástico Mario Cravo Jr, foi destruído por um incêndio. À época, o prefeito ACM Neto se comprometeu a reconstruir a escultura. Entretanto, um dos filhos do artista pede R$ 1 milhão para permitir a reconstrução, o que estagnou os planos da prefeitura.

Na manhã desta quinta-feira, durante a inauguração da nova Praça Visconde de Cairu, no Comércio, ao lado de onde ficava o monumento, ACM Neto comentou o impasse entre a gestão municipal e a família do artista.“Só não começamos a reconstruir porque houve um desalinhamento de posições entre a prefeitura e a família de Mario Cravo. Meu desejo é que o monumento seja reconstruído exatamente como era a sua configuração original porque ele passou a integrar o cartão-postal da nossa cidade. Mas não vou aceitar pedidos absurdos, uma parte da família queria cobrar um valor que eu me recuso a pagar para ceder o projeto”, afirmou Neto, que disse que outro monumento deve ser erguido no local caso não seja possível refazer o original.

Ao CORREIO, Otávio Cravo, que é filho do artista, contou que quase todos os herdeiros de Mario Cravo permitiram a reconstrução do monumento original sem cobrar pelos direitos da obra, entretanto, dois membros da família não são favoráveis ao acordo. Um deles, Ivan Cravo, que é irmão de Otávio, entrou com uma notificação extra-judicial em janeiro de 2020 pedindo R$ 1 milhão pelos direitos autorais da obra do pai.

“Eu estava à frente das tratativas com a prefeitura e com a Fundação Gregório de Matos (FGM) para refazer a obra. Os herdeiros de Mario Cravo tinham dado carta branca para a reconstrução e o retorno da obra o quanto antes nas característica feitas pelo autor, mas meu irmão Ivan e meu sobrinho Christian não assinaram o documento permitindo a obra”, contou Otávio, que alegou que o irmão deseja receber o dinheiro e o sobrinho ainda está “em cima do muro”.

Apesar de desejar ver o monumento refeito, Otávio ressalta que não pode obrigar o irmão a doar o projeto original. “Eu posso fornecer o projeto original. Já refiz um dos módulos da rampa que caiu há cerca de 10 anos e tenho os documentos e os cadastros das peças. A dificuldade não é o acesso aos arquivos. Eu imagino que a prefeitura não queira judicializar o assunto. Acredito que o município não deseja fazer a obra para depois responder a uma discussão na justiça”, disse o filho do artista.

Durante a fala nesta quinta, Neto fez uma afirmativa que corrobora com a tese de Otávio. “Caso a gente não sinta segurança jurídica pela falta de entendimento da família, vamos fazer um concurso público para a seleção de um projeto e a implantação de um novo monumento no espaço”, afirmou.

Segundo Otávio, os planos da reconstrução do monumento estão parados desde que o irmão fez o pedido de R$ 1 milhão pela obra de Mario Cravo. “Desconheço que exista outro problema. Para licitar a obra, a prefeitura tem que ter um Termo de Referência, mas essa licitação só pode ser feita ao final do problema”, contou.

De acordo com o presidente da Fundação Gregório de Matos (FGM), Fernando Guerreiro, o pedido do pagamento dos direitos autorais não parou as atividades de elaboração do Termo de Referência. “A gente está caminhando com tudo tecnicamente, mas só pode avançar se eles acordarem. O processo está correndo normalmente, mas não podemos fazer nada se ocorrer um entrave. A última coisa que nós queremos é estar envolvidos em escândalos. Espero que se chegue em algo consensual”, afirmou.

Guerreiro lembrou ainda que, em vida, Mario Cravo não solicitou o pagamento de direitos autorais para a realização de intervenções na Sereia de Itapuã e no Monumento a Clériston Andrade. “A possibilidade de realizar o pagamento está descartada. Nós estamos em um impasse e a família tem que decidir. Nós conversamos com os familiares para tentar chegar em um consenso”, disse.

O presidente da FGM diz torcer para que a prefeitura possa refazer a obra original. Caso seja necessário construir um outro monumento no local, a ideia é que este homenageie Mario Cravo. “Se for necessário construir um outro monumento, vai ocorrer um concurso público para isso. Essa é uma possibilidade dolorosa pois a obra é um monumento da cidade que precisa ser preservado”, ressaltou.

Correio 24 Horas