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Homem criado por lobos se decepciona com raça humana

O mogli da Serra Morena se chama Marcos Rodríguez Pantoja e está a caminho dos 72 anos. Este inverno foi duro na pequena casa onde mora em Rante (San Cibrao das Viñas, na província de Ourense, noroeste da Espanha), e o extraordinário relato de sua vida é interrompido de vez em quando por uma tosse violenta que lhe atravessa a alma.

Marcos Rodríguez Pantoja no último sábado diante de sua casa em Rante (Foto: El País)
Ele diz que hoje se sente um pouco melhor, que ontem o levaram para uma palestra e ele não se lembra onde esteve por causa do péssimo estado em que se encontrava. Depois assoa longamente o nariz e o tempo se torna eterno à espera de outro episódio de sua infância selvagem. Essa foi, segundo ele, a única vida feliz de que tem lembrança.

Os filhotes de lobo que o aceitaram como irmão, a loba que um dia o alimentou e com quem aprendeu o que significava a maternidade; os cervos, os pássaros, as cobras, os morcegos que dormiam no fundo de sua caverna e aquele enorme coro de animais com os quais ele trocava grasnidos e uivos. Todos eles o ensinaram a sobreviver e através deles ficou sabendo quais alimentos eram bons e quais cogumelos e bagas não devia provar.

O uso do fogo e a fabricação de utensílios ele aprendeu com um velho pastor de cabras que usava sapatos de cortiça que pouco depois morreu ou desapareceu, deixando-o completamente sozinho por volta de 1954, quando ainda tinha sete anos.

Hoje, o menino lobo que aos 19 anos foi arrancado de seu ambiente natural quando foi descoberto pela Guarda Civil, passa frio no mundo dos humanos. Essa sensação não era tão intensa na montanha.

Lá ele diz que logo ficou sem roupas e se vestiu com peles. Costumava andar descalço: “Só envolvia os pés quando ficavam doloridos por causa da neve”, diz. “Tinha calos tão grandes que chutar uma pedra era como chutar uma bola”. Depois de sua captura, enquanto tentou resistir dando mordidas, o mundo de Marcos Rodríguez desmoronou e ele nunca conseguiu recuperá-lo.

Sofreu incompreensão, enganos e abusos; foi explorado na hotelaria e como pedreiro; sua integração na manada humana jamais foi completa. Mas agora seus vizinhos de Rante o aceitam “como mais um” e o grupo de defesa do meio ambiente de Amig@s das Árbores da Limia organiza palestras e arrecada fundos para melhorar o isolamento térmico da casa em que Rodríguez Pantoja mora e comprar-lhe um aquecedor movido a biomassa. Ele não poderia pagar nada disso com sua pensão não contributiva.

Marcos Rodríguez, em sua casa (Foto: El País)
Marcos Rodríguez é um dos poucos casos documentados no mundo de crianças criadas entre animais, longe dos humanos. Nasceu em Añora (Córdoba), em 1946; quando a mãe morreu em um parto quando ele tinha três anos, o pai foi morar com outra mulher em Fuencaliente (Ciudad Real), onde faziam carvão. Ele diz que lá não conheceu outra coisa além de maus-tratos e com sete anos foi abandonado.

Foi levado às montanhas para ajudar aquele velho pastor que cuidava de 300 cabras, e começou sua própria sociedade com os animais quando ficou sozinho nessa fase fundamental da aprendizagem. Quando o encontraram, ele não andava mais em pé e havia substituído as palavras pelos sons da fauna. Mas chorar, chorava. “Os animais também choram”, enfatiza.

Hoje, enquanto pesca no poço de sua memória episódios que sempre soam novos, qualquer conversa com Marcos Rodríguez acaba desencadeando sua apaixonada defesa da natureza. “O homem pôs tudo a perder”, lamenta. “A cidade desprende porcaria e todo mundo vai morrer”, vaticina. Hoje “a montanha já não é como era”, e ele também não: diz que o levaram muitas vezes para regiões onde vivem lobos para ver se os animais se aproximavam dele. Mas já não o fazem. “Você percebe que estão ali do lado, você os ouve ofegar e fica de cabelo em pé... mas não é tão fácil vê-los. Se tem lobos e eu os chamo, eles vão me responder, mas não virão até mim”, lamenta. “Porque eu não me lavo com barro e nem me visto com peles. Tenho o cheiro das coisas das pessoas e uso colônia”.

Sua insólita existência foi objeto de estudos antropológicos e livros como os de Gabriel Janer, além de o filme Entrelobos (2010), de Gerardo Olivares. Ele insiste que depois de sua captura lutou muito para seguir em frente e que não se importa se existe gente que não acredite nele.

Admite que uma vez tentou escapar do mundo dos homens, “mas é difícil”. “A sociedade é como uma droga, por uma coisa ou outra, vai te pegando”. Sempre existem impedimentos e barreiras. Voltou poucas vezes ao “vale do silêncio” onde ficava sua caverna. Ele viu desencantado que havia fazendas e grandes portões elétricos. Aqueles galhos e ramos das árvores que diz ter usado como “cipós, para atravessar o rio” como um tarzã, estavam podres e ele caiu. Não, definitivamente, o mundo que Marcos Rodríguez Pantoja conheceu não existe mais, mas nele sobrevive uma sabedoria natural que ninguém lhe pode roubar.

“Acho que riem de mim porque não sei falar de política e nem de futebol”, lamentou um dia. “Ria deles”, aconselhou o médico: “Todos sabem menos do que você”. Depois de sobreviver penosamente em Madri, Maiorca e Fuengirola, acabou indo parar em Ourense, aonde chegou trazido por um policial galego.

Ele diz que foi trazido para trabalhar como pedreiro na casa do policial, e ficou morando na casa. Depois, o homem morreu e ele teve que se mudar. Encontrou muita gente má em seu caminho, mas também solidariedade.

De qualquer forma, os congêneres com os quais se sente mais à vontade são os filhotes humanos. O agente florestal Xosé Santos, porta-voz da Amig@s das Árbores, diz que organizam sessões em escolas para ele falar sobre seu amor pelos animais, do absurdo de “matar por prazer” e do cuidado com o meio ambiente: “É incrível como ele envolve as crianças com sua experiência de vida”.

O pequeno selvagem da Serra Morena não gosta nem um pouco das histórias de Chapeuzinho Vermelho e dos Três Porquinhos; contos infantis em que os lobos são uma ameaça e sempre são perdedores. “O bicho-papão, o lobisomem... A lua cheia não transforma ninguém em fera: os lobos uivam e têm mais atividade só porque enxergam melhor nas noites de lua cheia”, ilustra. “Eu proibiria totalmente essas lendas... os adultos assustam as crianças sem razão e isso não está nada certo”.

Fonte: El País

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